Crônicas de uma viajante em sua própria cidade – Sobre o Surf e Eu.

Hoje é dia de surf, bebê!

Hoje é dia de surf, bebê!

Praia do Beach Park, 28 de setembro de 2015.

Comecei a surfar (leia-se tomar caldo) há um tempinho, pelo simples fato de que morro de medo do mar e de tubarão. Estou na minha sétima aula e, a cada queda, me dou conta do quanto esse troço é extremamente difícil e empolgante. Comecei com uma prancha que mais parecia um caixão, fui pra uma menor e agora tô na última, antes de ir pra minha pranchinha-linda-que-vou-comprar-na-olx.

Pois bem, meu professor me disse há uns dias que iria viajar.
– “Oxi.. e minha aulas?!”
– “Vamos deixar pra quando eu voltar!”
– “Nem a pau. Me empresta uma prancha que eu treino sozinha!”
– “De jeito nenhum, Tatiana..”
– “Eu-quero-uma-prancha-pra-treinar-sozinha! Você sabe o quanto eu ainda tenho medo do mar, não vou fazer loucura!”
– “Você quem sabe!”
E me emprestou a prancha. (Com um sorriso e minha altura, consigo qualquer coisa nesse mundo. Adoro).

Fui semana passada sozinha, pela primeira vez, e o resultado foi: 15minutos na água, muita água no pulmão (sim, lá mesmo) e um medo que me fez voltar atrás. Uma semana de resistência, até que ontem me irritei com meu medo e fui de novo pra praia. Resultado: 1h no mar, muita pancada, algumas cambalhotas, muita terra no maiô e medo de morrer e ninguém identificar meu corpo.

Cheguei pilhada à minha casa. “Mas não tem perigo que eu não perco essa droga de medo de entrar sozinha no mar”. Teimosia modo on e eu fiquei até umas 4h da manhã acordada, vendo vídeos e mais vídeos para iniciantes.

Acordo cedo. “Vou só correr na praia, não vou treinar porque tô cansada. Mas… vou colocar a prancha no carro só por colocar mesmo!”. Hunrum. Em se tratando de mim, com certeza que eu ia teimar e entrar no mar de novo.

Vou o caminho todo cantando loucamente, o mais alto que podia. Achei uma música que é a cara da minha relação com o Mar.
“Old friend indeed
Come build me up
Come shed your light
It makes me shine.
(…)
Let´s laugh and cry
Until we die
(…)
If it wasn´t for you I´d be alone
If it wasn´t for you I´d be on my own
(…)
You´ve won my heart without a question”

O mar, pra mim, é mais que água, é Deus na terra. Não me pergunte o porquê, mas sinto profundamente acompanhada, ouvida e acolhida quando o vejo. Ele sabe minhas delícias e dores mais que qualquer um nesse mundo. E, acredite, ele também me responde.

Pois bem. Chego à praia. “Eu vou caminhar, mas tchô só dar uma olhadinha de como ele está hoje…”. Ora mais.. fui, voltei correndo e já peguei a prancha.

O mar estava espetacular, do jeito que uma iniciante precisa.

Aquecimento feito, começo a conversar com ele (como sempre) enquanto entro:
– “É o seguinte, somos amigos. Não precisa de brutalidade comigo, okay? Seja bacana comigo e não me deixe morrer que ainda quero fazer muita coisa nessa vida! Estamos combinados? Nada de morte por hoje?”

Começo a remar e – meu Déeeeos – consigo me equilibrar na bendita prancha. Mermão, tive vontade de beijar o mar na boca! Aí, a pessoa se empolga e já se acha o Medina: “Ah, se já sei fazer isso, vou lá pro fundão…”

Começo a ir, furo algumas ondas (quase choroooo! Obrigada, Deus, pelo Youtube e os tutoriais que vi ontem!) e eis que começam a vir umas ondas absurdamente grandes. Okay, eu tenho 1,51 e meio (segura o meio, minha dignidade tá nele!) e qualquer coisa é grande pra mim, mas a prova de que o babado tava forte é que vi um salva-vidas se aproximando e ficando na minha direção, lá na beira do mar.

“Bora, já tá aqui, vai logo, Tatiana!”.
Pausa.
Converso horrores quando tô tentando surfar. Acho que se eu falasse menos já até saberia mais. O básico é:
“Bora, bora, não para!”
“Esquece a prancha e relaxa” – aprendi com o teacher.
“Pra quê essa brutalidade?!” – me dirijo ao mar.
“Ai, ai, ai..” – falo isso mais rápido que um beija-flor batendo asa. Juro.
“Meu Senhor, vou morrer agora..”

Levo várias porradas do mar e volto toda hora pra tentar de novo.Depois de outro caldo, vejo o salva-vidas chamando mais um salva-vidas. “Jesus, será que tô tão ruim assim?”. Mais uns minutos e vejo mais um salva-vidas chegando. “Okay, eu sou MUITO ruim!”.

“Bora, porra. Não para!”

Depois de váaarias quedas, eis que consigo pegar (sozinhaaaa!) uma onda e fico 0,002 segundos em pé. Meu amigo, eu gritava tanto nesse mar que ninguém faz ideia! Mandei até beijo pros salva-vidas. Eles só acenaram – são tímidos, uns fofos.

No meio de outras quedas, olho pra minha mão e vejo sangue saindo de alguns dedos. Aí, o desespero tomou conta. “Tubarão chega perto com sangue. Correeeeeee!!”. Juro que nunca remei com tanta força na vida pra fora do mar.Antes que você me ache ridícula, tava saindo muito sangue mesmo (mentira. Era coisa de uma gota de ketchup, sou ridícula mesmo). Não só o meu sangue me fez voltar pro raso. Tinha horas que a onda vinha e o mar ficava meio avermelhado, o que me fazia pensar “Meu Deus, um tubarão acaba de comer um cardume aqui e isso é sangue!”. (Tô com vergonha de dizer que, na verdade, o “vermelho” era marrom da areia que vinha pra superfície com a onda).

Pois bem. Fico treinando mais remada numa piscininha que tinha lá – era piscina, mas eu não encostava o pé no chão, então tava valendo. Remo, remo, remo e fico com os braços do tamanho do Minotauro. Hora de descansar os braços. “Bora treinar ficar sentada na prancha”. Que mi-co!

“Tatiana, senta e abre as pernas!” – meu professor sempre diz isso, mas não tem jeito: eu sempre cruzo as pernas embaixo da prancha, o que me faz virar de cabeça pra baixo em questão de segundos. Patético.
Quem está lá na praia, só vê uma duas perninhas cruzadas numa prancha, enquanto que eu estou, de cabeça pra baixo, balançando os braçosque nem uma nadadora profissional de nado sincronizado.

Treino, treino, treino, mas não tem jeito: A lei de murphy, do pão que cai sempre de cabeça pra baixo, acontece valendo comigo.

Hora de voltar pra casa depois de uma hora no mar. Tô acabada, mas numa felicidade absurda por estar com a mão sangrando. “Vivaaa, tô treinando de verdade!”. Sabe criança mostrando o “dodói” pra adulto? Pois bem, era eu com todo mundo lá de casa.

Sangueee! Que orgulho! :)

Sangueee! Que orgulho! 🙂

Mar, seu lindo, você não faz ideia do quanto eu te amo. Obrigada por me fazer tão feliz e por erguer tanto (ou não) a minha autoestima e meu carinho por mim mesma.

Que venha mais surf!

Diário de Bordo – Morro Branco/Ceará

Morro Branco/Praia das Fontes/ Beberibe, 22 de agosto de 2015

7h da manhã em pleno sábado. Essa é a hora que acordo, morta de feliz (mentira) e empolgada (verdade) porque tenho mais um dia inteiriiiiinho nesse lugar lindo.

Primeira surpresa do dia: nada, absolutamente nada no quarto funciona – luz, energia e até a água desapareceu. Ligo para a recepção, mas quem disse que o telefone funciona? Desço. “Léo, nada no meu quarto funciona” e fico sabendo que a energia faltou e esse é o resultado de quando isso acontece.

“Mas, pera… o que a água tem a ver com a falta de luz?”. Okay, jurei que calada ficaria depois das ratas de ontem e calada fiquei.

Tomo meu café da manhã divino. Hora de ruar. “Pera, vou só tentar achar meu cartão de crédito que está perdido desde ontem.. Vai ser rapidinho…”.

Por “rapidinho”, leia-se 5h (li-te-ral-men-tchy) procurando a droga de um cartão.
Carro – nada.
Quarto do hotel – nada.
Carro de novo – nada.
Lixo do banheiro – nada.
Carro de novo – nada.
Jardim do hotel – nada.
Piscina (sim, eu me prestei a esse papel) – nada.
Falésias – nada.
Mar Vermelho – nada.
Tumba de Maomé – nada.

Esse cartão não tava no mundo, meu pai! Não pode uma coisa dessas! Na milésima vez que volto ao carro, vejo um rapaz me olhando do alto da casa que fica em frente ao meu hotel. Já fico com raiva, uma raiva do tipo “Tá olhando o que? -Perdeu alguma coisa em mim? – Para de me encarar porque já tô puta o suficiente!”. Alguns minutos depois, escuto:
– “A senhora perdeu alguma coisa?”
– “Perdi!” – usando aquele tom “sai da minha aba!”
– “Eu posso ajudar?”
Ai… gamei nele e me senti a pessoa mais chata do universo.
– “Pode, mas eu já revirei esse carro e não tá aqui porque…”
Tô falando a frase e vejo o carinha AJOELHADO no chão, pegando no chão, espalhando a areia pra ver se não tava no chão. Okay, eu sou mesmo a pessoa mais chata do universo.

Tratava-se de Cláudio, uma alma do bem que me ajudou a revirar por mais 1h e pouco meu carro. Nada. Nuh uh.

– “Cláudio, não tá aqui…”
– “Não tá mesmo, senhora…”
– “Para de me chamar de senhora, Cláudio… Me chama de Tati. Já tô arrasada o suficiente.”
– “Tudo bem, Tati..”
Sentamos no chão, ambos suados, cansados.
– “Sabe o que eu aprendi com tudo isso, Cláudio?”
– “Oi..” – ofegante.
– “Caramba, como é difícil depenar um carro! Jamais trabalharia com isso!”
Rimos e eu me despeço.
– “Você vai procurar no quarto de novo?”
– “Cláudio, não tá lá. Mais provável eu achar o corpo do Ulisses Guimarães lá do que esse cartão. Eu vou voltar pra Fortaleza e pegar dinheiro.”
– “Quem?”
– “Um carinha aí que morreu e nunca encontraram o corpo dele.. Xá pra lá…”

No caminho pra Fortaleza – status: muito mansa! – lembro: “tomei sorvete antes de vir pra cá!! Esse cartão tá lá! Certeza!”

Pausa. Esses dias, uma pessoa viu um papel do lado de fora do meu carro e disse “Posso tirar isso dali? Eu tenho certa aflição de ver coisas fora do lugar”. Pensei em dizer que eu amo ver coisas fora do lugar, mas não quis assustar. É bizarro, eu sei, mas eu a-do-ro perder coisas e por isso as deixo sempre largadas, soltas em qualquer lugar. Motivo? Eu gosto de encontrar coisas! Adoro a sensação do “acheeeeei!”. Semanas atrás, perdi meu cartão e fui encontrá-lo no lixo, já do lado de fora de casa, faltando pouco tempo pro carro do lixo passar. Eu parecia criança ganhando presente de Natal quando achei esse cartão. (Meu Deus, meu ciclo social vai diminuir valendo depois dessa confidência).

Chego a Fortaleza – 80km depois – e vou direto pra sorveteria. Nada de cartão. Sem um pingo de vergonha nessa cara, falo:
– “Posso ver seu lixo de ontem? Ele tá aí, não tá?”
– “Po..de… Mas não acho que esteja lá..”
– “Posso tentar?”
Fuço toooodoo o lixo e nada. Eu não estava olhando pra moça da loja, mas sentia o peso do olhar dela em mim. “Essa criatura é completamente maluca!”.

Vou pra casa, pego dinheiro e volto pra Morro Branco – mais 80km. “Rapaz, eu tô com raiva. Que dia pra dar tudo errado! Falta luz, água, sorte pra achar o cartão… Quer saber? Vou pra aquele tal de lago lá que me disseram que só dava pra ir de buggy!”. É assim: a raiva me faz ficar mais mula, mais teimosa ainda.

Fora os 80km, dirijo por mais 1h e pouco atrás de um lago e naaaaaada. Falta luz, falta água, falta cartão de crédito, falta laaaago nessa cidade. Jurei 77 vezes que eu atolaria e o pior é que não tinha uma alma viva pra me ajudar e a bomba da Oi nem pega aqui. Nunca cantei tanto Lua de Cristal – eu canto isso mentalmente quando me sinto com medo em minhas viagens. “Tudo que eu quiser, o Cara lá de cima vai me dar, me dar toda a coragem que puder…”. (Lá se vão mais pessoas do meu ciclo social…).

Desisto de lago e volto pra Morro Branco com muita raiva da vida. Tô saindo do carro e chega meu presente do dia: o Douglas. Douglas é um guia turístico engraçadíssimo, que fala sem parar e te chama de “amiga” mais vezes do que você já foi chamada em toda a sua vida. Todinha. Lá vem ele, com seu cardapiozinho de coisas a se conhecer em Morro Branco, todo-todo.
– “Doug, eu vou almoçar e depois fazemos todos esses passeios. Mas vamo baixar esse preço!”
Tô lá eu sentada e Douglas me aparece a cada 5min pra lembrar que ele tá ali. O cara me arrancou a alegria de viver de novo de tão figura que ele era.
Acabo de almoçar. Douglas já vem no meu encalço dizendo que ia me dar de presente um desconto de vinte reais.
– “Bora, Doug. Cadê teu buggy?”
– “Não, amiga, vamos no teu carro!”
Racheeeeeeeeeeeeeeeeei de rir!
– “Comé quié?! Você tá me cobrando sessenta reais pra EU te levar pra passear?!” – me faltava ar de tanto que eu ria (e ele rindo junto).

Me despeço do Doug e vou pras falésias. Lindas. Sem palavras. Passaria horas de boa deitada naquela areia, só olhando pro mar e pro céu. Lindo. Lindo. Lindo.

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Falésias – Morro Branco

Volto pro hotel e já tá anoitecendo. A lua está especialmente linda hoje e eu tenho vontade de enfiá-la goela abaixo na garganta de uma piveta que não para de gritar gratuitamente. De boa, trabalho com criança, entendo que elas tem movimentos diferentes dos nossos – supostos adultos – mas aquilo era demais! Ela simplesmente gritava. Isso, do nada. Só “áaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa” pro ar, pro vento, pro céu, pra lua. Eu olhava e procurava “porque, Deus, porque ela tá gritando?!?” e nada aparecia. Ninguém tava brincando com ela. Ela tava so-zi-nha, berrando pro céu.

Me controlo e vou pra piscina. Nada como nadar à noite, olhando pra essa lua linda, só boiando e.. “Caraca, cala a boca, menina!”. Desisto, ela ganhou. Não tem como pensar na vida escutando tanto “áaaa” (ela gastou TODOS as vogais “a” do universo!). Janto e volto pro meu apartamento.

Eu sou do tipo que acredita piamente que nada acontece por acaso, tudo tem um propósito. Ainda tô me questionando o porquê de tanta coisa ‘torta’ no meu dia e só me vem uma coisa à cabeça:
“Áaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!” – vou matar essa menina!

Beijo, White Hill. Me faça mais carinho amanhã porque hoje foi fogo.

DIÁRIO DE BORDO – MORRO BRANCO/CEARÁ

Falésias - Praia das Fontes

Falésias – Praia das Fontes

Morro Branco/Praia das Fontes/Beberibe, 21 de agosto de 2015.

Eu vivo movida a viagens. Fato. Depois que fiz minha primeira sozinha e vi o quanto uma viagem é capaz de me nutrir, eu pre-ci-so, de tempos em tempos, viajar.
Ontem, estava eu na clínica, e comecei a sentir um faniquito, uma vontade de sair pelo mundo, fazendo coisas que me desafiem. “Vou viajar, nem que seja pro quintal da minha casa”. Minutos depois, estava decidido – eu iria pra Morro Branco, aqui no Ceará mesmo (conheço mais o Canadá do que meu próprio estado – fato).

O plano que estava na minha cabeça:
– 5h – levanto e tomo banho;
– 5h30 às 6h30 – arrumo a mala;
– 7h – levo o carro pra colocar óleo e calibrar pneus;
– 8h – estrada;
– 9h30 – Morro Branco, se joga nimim.

O plano, tal qual aconteceu:
– NADA A VER COM O QUE VOCÊ LEU ACIMA! Nada. Nadinha. Hum-hum. Zero. Conjunto vazio.
Acordei 7h (repare na pontualidade britânica), passei 17h enrolando pra arrumar mala, cheguei ao posto às 9h, esperei 2h30 pra ser atendida e receber o carro de volta e cheguei ao meu destino final às 14h.

Mas vamos com calma. Primeiro: a mala. Eu achava que com o passar do tempo, à medida que eu viajasse mais, saberia fazer malas com mais rapidez e praticidade, sempre sabendo de cabeça o que deveria levar. Minha mala atual denuncia que: eu esqueço o mais essencial, mas nunca os 23mil cabos que carrego das 23mil máquinas que levo pras viagens que faço; pego as roupas como alguém que pega num recém-nascido, mas soco tudo na mala fazendo mais parecer o bolo gástrico do que uma mala de roupas; não adianta, eu sempre vou esquecer a pasta de dente; coloco cinco vezes mais roupas de baixo do que realmente vou usar.

Saio de casa e vou para o posto de gasolina. “Vai ser rapidinho, é só uma troca de óleo”, mas, como disse, passo quase 3h lá. Chego e lá aparece ele, vindo de debaixo de um carro, ele, o Jorge. Jorge é o mecânico que-ri-do que sempre mexe no meu motor (sem trocadilhos, de verdade) com aquele seu sotaque paulista e toda cordialidade do mundo. Pausa. Você, mulher, que é da época da novela Quatro por Quatro, que lembra do mecânico Raí, é disso que estou falando, meu bem, quando falo de Jorge. Jorge faz a lenda do mecânico-charmoso-todo-sujo-de-graxa ser real.
– “Minha raiiiiinha, há quanto tempo!” – fala Jorge.
Pausa. Conto numa mão do Lula quantos homens eu deixei que me chamassem de nomezinhos assim, mas o “minha rainha” do Jorge-Raí não dá…
– “Jorrrrrge (enrolo a língua que nem paulista), meu querido, tô precisando trocar o óleo”
– “Eu faço o que você quiser, minha rainha! O que você quer?”
Alguns segundos de silêncio se seguem.
Minha resposta mental: minha mãe tá aqui no face, deixa pra lá.
Minha resposta real: “Só trocar o óleo e o filtro mesmo. Era pra ter trocado 4mil quilômetros atrás…”

Pego a estrada, mas não sem antes disparar:
– “Jorge, tô indo viajar. Você pode me dar uma ajudinha?”
– “Claro, minha rainha…”
– “Pra onde fica o Morro Branco?”
Jorge dá uma gargalhada paulista tão alto que me obriga a rir junto.
– “Você não sabe nem pra onde fica?”
– “Faço nem ideia”
– “Vamos lá.. Você vai como se fosse pra Aracati..”
– “E Aracati fica pra onde?”
Outra gargalhada. Rio junto.
– “Você tem gps?”
– “Não. Gosto de ACHAR os lugares e não de SER LEVADA até eles. Tenho aflição de tudo que me é dado de mão beijada”.

Jorge-Raí me rabisca umas coisas e eu me despeço com meu sorriso mais largo, digno de uma Babalu.

Estrada. Ai, como eu AMO dirigir. É quando mais penso com calma, quando mais me sinto viva, quando mais coreografias dignas de Beyoncé faço, quando canto mais empolgada. Amo, a-mo!

A uma certa altura da estrada, vejo uma bifurcação. Cara, como eu odeio bifurcação. Bifucarção me dá taquicardia e sudorese pelo simples fato de que odeio escolher e tá ali, bem na minha frente, duas estradas e eu preciso decidir. Ódio da minha vida.

De um lado, vejo uma placa escrito “Iguape” e, do outro lado, “Cascavel”. “Meu pai celestial, cadê o nome Morro Branco ou Beberibe que o Jorge tinha me dito? Jesus, Jesus, Jesus..”
Eis que, em milésimos de segundos, uso meu pensamento lógico-matemático enquanto dirijo:
“Tati, pensa! Iguape lembra “a pé”, as pessoas sobem a pé um morro, logo Iguape tem a ver com Morro Branco.
Cascavel lembra cobra maliga, cobras não vivem em praias, logo Cascavel não é a estrada que você tem que pegar!”.

Pego a estrada pra Iguape e óbvio que, quilômetros depois, vi que estava errada. “Eu, definitivamente, sou mesmo da área de humanas”.

Chego a Beberibe. “Continue, não pare aqui porque seu destino é Morro Branco”, penso nisso enquanto olho pro mapa do hotel, cujo endereço está marcado com canetinha rosa “Avenida num sei o quê, BEBERIBE, Ceará”. Dirijo até Morro Branco e volto tudo de novo depois de um carinha me dizer “Senhora, está aqui, bem rosadinho no seu papel, BE-BE-RI-BE” – Cara, ele silabou… Caçoou geral com a minha fuça.

Chego de novo a Beberibe. Me perco dentro de um lugar que deve ter 3 ruas. Paro um motoqueiro no desespero, ao que me responde, usando seus óculos espelhados alaranjados:
– “Amor, eu vou dizer ‘pa tu’ (apontando o dedo pra mim que nem um Menudo): eu moro aqui e só conheço dois ‘hotel’, esse aqui e o Faresias ali..”
– “Qual?”
– “O Faresias… eu trabalho lá!”
O nome do hotel é Falésias e eu quase tive um treco de vontade de rir. Ô cara querido, viu? Virei muito fã dele!

Chego ao meu hotel. Léo me atende e me leva ao meu quarto. Que hotel LINDOOOOO! Bouganville é o nome dele e fica em frente ao mar e NAS falésias. Esse lugar é tu-do! Perfeito!

Ando pela praia e pelas falésias me sentindo a própria mochileira (você leva só 3min pra subi-las, mas tô me achando no Grand Canyon mesmo assim).

Volto pro hotel e vou lanchar. Conheço Júnior e Ronaldo, os dois atendentes queridos daqui. Simpaticíssimos!
– “Quero bolinha de peixe e um suco (mentira, pedi Coca mesmo)”.
– “Bolinha de peixe ou bacalhau?”
– “…bacalhau não é um peixe?”
Eles se olham e começam a rir. Dou meu riso nervoso e falo:
– “Brincadeiréeeenha! De peixe mesmo…”
Mal eles saem e corro pro Google pra saber qual é a diferença porque ainda não tinha entendido.

Tinha ouvido falar que a comida do hotel era muito boa, mas ela é surreal. Que bolinha-de-peixe-não-é-bacalhau deliciosa! Putz!

“Agora, tá na hora de piscina e continuar a ler meu livro”. Chego lá e encontro dois rapazes. “Ai, que raiva.. não vou ficar de biquini aqui com dois homens porque..” – mal acabo meu pensamento e eles se beijam. “Ebaaaaa!!! É hoje que eu me acabo nessa piscina” – enquanto vou logo me despindo.

Um deles, está sentado, vendo vídeos, o outro está feito uma gazela, fazendo acrobacias na piscina. Sinto invejinha e começo a competir com ele, a própria Daiane dos Santos das piscinas.

Depois de 47 cambalhotas, sinto todo o peixe-não-é-bacalhau querendo voltar. Acho que fiquei roxa, pois meu companheiro de piscina me perguntou até se eu tava bem.
– “Acho que não..”
– “Se você for gofar, você pode me avisar só pra eu sair daqui?”
Quis socar aquele cara.

Nado mais, leio um pouco, tiro fotos casuais do tipo “Eu viajo sozinha, mas tiro fotos olhando pro nada, como se alguém tivesse me pego de surpresa”.

Hora de ver o por do Sol. Ai, meu momento mais esperado. Sento ali, olho pra aquele mar imenso visto de cima das falésias, lindo que só ele e agradeço imensamente a Deus por estar viva, por estar aqui. Confidencio pro mar algumas coisas e me sinto abraçada, acolhida e compreendida (baixou a Cecília Meireles em mim agora).

Nem disse, mas atrás do hotel, bem atrás mesmo, encontram-se várias coisas daquelas pra gerar energia eólica. Não me pergunte o porquê, mas aquilo me dá uma paz sem tamanho e quando vi que havia várias bem atrás do hotel, quase me acabo de gritar no carro. À minha frente, o mar; atrás de mim, essas benditas hélices. É, Deus me ama mesmo.

Banho e jantar.

– “Ronaldo, não gosto de comida de gente chique. Você não tem nada como arroz e feijão aqui, não?” – falo pro querido da cozinha.
– “Não…mas nossa lagosta é ótima!”
Peço a bendita lagosta porque é o único prato que serve uma pessoa. Comi lagosta quando era criança e criei trauma mesmo sem saber porque.
Enquanto espero, leio meu livro até que Ronaldo se aproxima e me pergunta se sou uma pessoa curiosa, pois ele me vê lendo o tempo todo. “Não sou muito de ler, leio bem pouco, na verdade, mas, sim, sou muuuuito curiosa e por isso também amo viajar!”. Conversamos sobre viagens, leituras e descubro o quanto aquele garoto é uma pessoa iluminada.

Meu prato chega.
– “Rô (já me tornei íntima), você não me disse que tinha palmito nesse prato…”
Ronaldo olha pro outro atendente e ri, que nem hoje de tarde.
– “Isso é a lagosta..”
Rio junto, que nem hoje de tarde.
– “Brincadeiréeeeenha”.
Okay, se amanhã tiver um rato no meu prato ou escrito no cardápio, eu vou simplesmente sorrir. “Não abra mais sua boca pra perguntar nada, Tatiana. Nada!”.

White Hill, Morro Branco, seu lindo, já te amo mesmo com tão pouco tempo. Obrigada por me devolver coisasdas quais nem mesmo eu sabia que estava sentindo falta.

Diário de Bordo – Vancouver

Vancouver, 10 de maio de 2015.

Ai, que dor é ter que partir… Já acordei meio triste, mas com uma vontade enorme de viver intensamente minhas últimas horas em Vancity.

Arrumo as malas com uma sensação de pesar enorme – e olhe que eu a-do-ro arrumar malas – e parto para o meu super picnic no Stanley Park.

Vou pra Davie Street pra pegar o ônibus nosso de cada dia, o 06-Davie, que tanto me acompanhou nesses dias. Não falei antes, mas fiquei numa rua chamada Pendrell que fica a um quarteirão dessa Davie Street, uma rua super conhecida, bem central e que é conhecida por ser a Gay Street de Vancouver. Basta andar muito pouco para você perceber que ela é uma rua diferente mesmo das demais, com suas paradas de ônibus pintadas de rosa, faixa de pedestre colorida e diversas bandeiras gay espalhadas pela rua. Nela, você também encontra muitos bares e algumas lojas de produtos eróticos. Enfim, é uma rua bem movimentada, onde você vai encontrar com mais frequência casais homossexuais circulando tranquilamente de mãos dadas, demonstrando carinho um com o outro… E viva o amor e a liberdade de amar, seja como for!

Davie Street

Davie Street

Meu ônibus chega e eu tenho o privilégio de presenciar um cadeirante fazendo uso do ônibus em Vancouver. Todos os ônibus, absolutamente todos, são equipados para dar acessibilidade a todos os cidadãos, da idade que for e com a dificuldade que for de locomoção. O motorista para, abaixa o ônibus (como faz sempre, com qualquer passageiro), aperta lá um botão que retira uma rampa, o passageiro que usa cadeira de rodas entra com sua cadeirazinha motorizada e dirige-se a uma parte do ônibus que também é reservada pra ele com toda a segurança necessária para que ele não caia no andar do ônibus. Um detalhe: o motorista só anda com o carro depois que a pessoa avisa que já está bem acomodada e segura. É ou não é um lugar apaixonante? Por falar em respeito às diferenças (que de diferença não tem nada), lá vem Vancouver dar mais uma lição pra gente…

Chego ao Stanley Park, mais precisamente no finalzinho dele e começo da English Bay. Ando um pouquinho até que acho o lugar que senti que era onde devia fazer meu picnic esperto. Estendo minha toalhinha com xadrez vermelho e branco, coloco minha comidinha cênica (sim, tinha um pão lá que eu levei só pra foto porque o troço era ruim demais) e a de verdade (hummmm…. delícia de cereal com leite), ligo nas minhas músicas prediletas e vou ser feliz. O dia estava especialmente lindo hoje, não tão frio e nem tão quente e com um Sol maravilhoso – o que fez com que o parque estivesse repleto de pessoas caminhando com ou sem seus cachorros, andando de bicicleta, correndo… Vancouver é uma cidade com cara muito jovem e saudável, isso é fato! É do tipo que você fica com vergonha por ser tão sedentária e mente dizendo que se exercita 3h por dia – eu menti pra umas pessoas, sim! Lá ia bancar a zé doidinha que não levanta nem um dedo sequer?

Stanley Park - English Bay

Stanley Park – English Bay

Pois bem, estou lá eu no meu pincic como “uma deusa, uma louca, uma feiticeira. Meu Deus, ela é demais!”, ouvindo minhas músicas e fazendo caras e bocas como alguém num clipe, até que me aparece um pato do nada. Sim, um pa-to! Na verdade, Vancouver tem vários patos (e corvos! Milhares de corvos por todo canto!), mas não tinha visto nenhum ainda ali onde eu estava. “De onde esse pato apareceu, em nome de Jesus?” – penso, enquanto como meu cereal. “Ainda bem que eles são bichos indefesos, que tem mais medo da gente do que a gente dele…”. Enquanto estou pensando nisso, eis que o pato que estava andando até então, para e começa a me encarar. Ele me olha no fundo dos olhos meio que dizendo “Eu gosto de cereal também” e eu começo a me apavorar (tenho medo de levar bicada mais do que de morrer). “Se eu não me mover, pode ser que ele desista de mim”, pensei, inspirada no que vi em Jurassic Park. Que nada! Quanto mais parada eu ficava, mais ele chegava perto de mim, ainda me encarando. Decido me levantar e, quando me dou conta, tem dois velhinhos da cabeça bem branquinha sentados atrás de mim, observando tudo e rindo horrores-dolores-ventiladores.

– “Eu preciso de ajuda…” – digo pra eles, ao que eles só riem. Sinto uma certa raiva, mas prefiro pensar que eles eram russos e não falavam inglês.

Quando volto pro pato, ele já está mais próximo ainda da minha comida e minha agonia aumenta. Esqueci de dizer: ele tinha dois metros só de bico! Ele era gordo, grande e com um bico que atravessaria um órgão meu se ele me bicasse.
– “Xô, patinho… Sai daqui, eu que comprei isso! Sai, sai!”
Ele se aproxima e me encara com ódio e fome nos olhos.
– “Eu não vou te dar nada! Eu comprei! E é doce, você vai morrer comendo isso! Vai comer mato, vai!” – começo a tirar as coisas da toalha e ele vem quase correndo. Não me pergunte porque, mas eu simplesmente peguei meu celular, coloquei no volume mais alto (tava tocando I lived, do OneRepublic) e joguei na direção dele. Ele bicou meu celular umas duas vezes e saiu correndo. Não sei se foi o barulho ou o gosto do meu celular, mas sei que o OneRepublic salvou minha noite do dia 02 de maio aqui com aquele show lindo e me salvou do pato assassino (eu acredito veementemente que ele não queria só minha comida, mas me matar também. Não era normal aquele olhar dele, gente…).

Volto a me deitar na grama e aproveitar meu picnic, mas fico de olho no Pato Estripador, que deita-se a alguns metros de mim e começa a dormir. Não existiria nunca no mundo uma forma mais minha de se despedir de Vancouver do que deitar na grama e lá ficar, até sentir sono e, quem sabe, cochilar. E assim o fiz, sentindo um aperto no peito e, ao mesmo tempo, enorme gratidão por ter pisado naquela cidade e vivido tantas experiências lindas e inesperáveis!

Levanto-me e vou conhecer o Inukshuk, um monumento feito por nativos de British Columbia e que é encontrado por todo lugar em Vancouver. Trata-se da figura humana construída através de pedras e é a coisa mais fofinha do mundo. No finalzinho da English Bay, você encontra um bem grandão e é pra esse que eu fui. Fotos tiradas, ‪#‎PartiuGastwon‬, um dos bairros mais conhecidos de Vancouver.

Gastown é um bairro com arquitetura bem diferente do que você encontra normalmente em Van, pois tem construções mais antigas, que remetem ao século passado (me lembrou muito anos 20, 30), diferentemente dos prédios espelhados que se vê por todo lado. A parada obritagória lá é conhecer o Clock Steam, um relógio lindo a vapor que apita de vez em quando. Ele é daqueles modelos bem antigos de relógio com pêndulo e tudo mais e é possível ver como seu maquinário funciona, uma vez que partes das paredes são de vidro.
Ando pelo bairro e me encanto com cada pedacinho dele! Que vontade de ter ido pra lá à noite, deve ser lindo! Almoço minha comida saudável (peixe frito com batatas fritas) e me despeço de Gastown.

Antes de voltar pra casa pra me arrumar e ir embora, passo na loja do Max-alemão-querido pra me despedir. Que tristeza que me deu… É tão ruim se despedir de pessoas que fazem bem pra gente, né? Mas faz parte do processo de viajar… Dou 1 bilhão de abraços nele, agradeço imensamente por tudo e o convido para ir ao Brasil (ele tem medo de derreter lá!).

Volto pra casa a pé mesmo, apesar de ser uns 30 minutos de caminhada e de estar morta. Eu queria me despedir das ruas, do cheiro, das cores, das pessoas andando, dos carros andando devagar e respeitando os pedestres. Queria sentir de novo a sensação de um carro parando pra mim porque eu coloquei um pé na rua. Queria ouvir as pessoas pedindo desculpas porque esbarraram umas nas outras. Queria vê-las sorrindo pra mim quando cruzávamos os olhares. E em cada passo que eu dava, me despedia de todas as experiências que vivi em Vancouver e de todo o bem que essa cidade me fez em dez dias.

Chego à casa da Brooke, arrumo o que faltava da mala, tomo meu banho quente e me despeço dela. Não só recomendo a casa dela (ela me acolheu com uma simpatia e carinho que chegava a constranger), como também o AirBnB, que nada mais é do que um site no qual pessoas se inscrevem para abrigar viajantes nas suas casas. É um site bem seguro pelo que pesquisei (e experimentei) e sai bem mais barato do que ficar em hotéis, certamente. As pessoas podem ofertar desde um quarto da casa até a casa inteira, em alguns casos! Super recomendo!

Chego à estação Pacific Central Station, onde pegarei meu trem da companhia ViaRail rumo a Jasper. Cara, eu cheguei à estação já sorrindo, quase rasgando minha boca. Ninguém nunca vai fazer ideia do quanto sonhei com essa viagem! Nunca! Essa viagem, nesse trem, já foi eleita por uma revista como uma das 10 coisas a se fazer antes de morrer (tinha um ranking lá, mas sou terrível pra lembrar número, então inventei esse 10 aí). A minha será uma viagem de 18 horas, mas o trem segue atravessando todo o Canadá, de ponta a ponta.

O segurança da estação era um querido que, quando me viu meio
deslocada, veio me perguntar se eu queria ajuda (tão canadense!). Quando faço meu check-in e vou pra fila, ele se aproxima e diz: “Só me prometa uma coisa: aproveite a sua viagem!”. Abro o maior sorriso e digo bem alto “Eu vou! Pode deixar!”.

Hora de embarcar! Uma retardada – é assim que eu (e os demais passageiros) me descrevo entrando nesse embarque. A única coisa que eu falava enquanto andava em direção ao trem era “Uaaaaaaaaaaaaaaaau!”. Alguns funcionários, espalhados no caminho, ficavam nos desejando boa viagem, com um sorriso enorme no rosto. Cheguei a me sentir um astronauta indo pra Lua com tanta gente me desejando, em fila, boa partida. Uma dessas funcionárias, quando me viu dizendo “uau”, perguntou se eu era brasileira, ao que eu disse bem alto “Siiiim, Brasil”. Ela também era do Brasil, aquela coisa querida, e voltei correndo pra dar um abraço nela!

Entro no trem com cara mais de retardada ainda! É incrível por dentro, super confortável e aconchegante. As poltronas são grandes, maiores do que de avião, reclinam pra caramba e ainda tem um banquinho pra apoiar os pés. Tem também tomada pra cada poltrona. O Jeff e o George serão os funcionários que irão nos atender se precisarmos (super gentis!). Eles anunciam algumas regrinhas e como funciona o trem e corro logo pra perguntar se eles estão vendendo o kit sobre o qual eu tinha lido (cobertor, tapa olho, protetor ouvidos e travesseiro). Eu queria mais como souvenir mesmo, pois tinha ouvido dizer que vinha numa sacolinha com o nome da ViaRail e tal. Souvenir comprado (CAD$10,00), vou visitar o dome (acho que se fala assim), a parte que me fez sonhar com essa viagem. Essa área do trem fica acima da que estamos (um andar acima) e tem o teto de vidro, de modo que você tem uma visibilidade muito mais completa das paisagens. Lá vem a cara de retardada de novo. (E olhos lacrimejando). “Eu estou num trem da ViaRail! Eu estou aqui de verdade, não é vídeo do Youtube! Eu estou pisando esse lugar!”. Que alegria e que emoção! Putz… não dá pra descrever!

The Canadian - ViaRail

The Canadian – ViaRail

Hora de dormir. O dia foi cheio de sensações diferentes, desde tristeza que dói na alma até alegria que não cabe dentro do próprio corpo. Tomara que Jasper e Banff, meus destinos a partir de agora, me despertem as melhores sensações e me garantam as memórias mais lindas!

Vancouver, obrigada, obrigada, obrigada! Minha gratidão e amor por você vão muito além do que eu possa escrever! Te vejo em breve, quem sabe!

Simbora, Canadá!

Diário de Bordo – Vancouver

Vancouver, 09 de maio de 2015.

Deep Cove

Deep Cove

Acordo bem cedo e combino de ir para o Deep Cove com o Tim, um canadense querido que super me ajudou com dicas preciosas do que fazer e conhecer aqui em Vancouver.

Depois de me pegar em casa, fomos pro Deep Cove, que fica em North Vancouver. No caminho, eu ia perguntando tudo pra ele, igualzinha a uma criança, desde como se falava tal palavra até o que era isso ou aquilo.

Chegando a Deep Cove, fomos primeiro tomar nosso café da manhã esperto e saudável: pão com ovo e bacon (Jesus, me perdoe!). Escolhemos um lugar super bacaninha que tinha fotos bem antigas de como era a cidade antes e que tocava música brasileira! Quão grande foi a minha suspresa quando começo a escutar as minhas músicas prediletas da época que eu ia pro Amicis!

Depois do café, fomos tentar alugar um caiaque para nos aventurarmos nas águas do Deep Cove. Como tava um Sol de rachar, o lugar estava bem cheio e disputado e por isso não conseguimos alugar – segundo a moça, teríamos que reservar com uns 2 dias antes, no mínimo. Como não deu certo nosso passeio, ficamos ali, sentados, só olhando e conversando sobre tudo que você possa imaginar. Que lugar LINDO, meu povo! Lindo, lindo, lindo! Não só em frente ao mar, mas ao redor mesmo, que é cheio de parques enormes e lindos! Na verdade, parque é uma coisa que não falta aqui em Vancouver. Pra onde você olha, você vê natureza, verde, cor, vida… Nesse sentido, é bem diferente de Toronto que, apesar de ter parques, é mais cidade, mais prédio que Vancouver.

Hora de partir. Antes, parada obrigatória para tomar nosso sorvete (gelato, na verdade). Que de-lí-cia! Pedi de 3 sabores no cone e a moça (uma simpatia só!) colocou uma bola em cima da outra bem perfeitinho, do jeito que dá até pena de comer.

Voltamos a Vancouver e, dessa vez, Tim me levaria ao Prospect Point, um ponto super conhecido que fica no Stanley Park e que eu perdi no dia que andei de bike lá. Pausa para tomar mais sorvete e, então, ver a vista do Prospect Point. QUE VISTA! Nossa, tudo aqui nessa cidade é lindo… Meu Deus do Céu!

Tim me deixa em casa e me despeço de um dos canadenses mais simpáticos que conheci! Ri muito, aprendi muito e achei a coisa mais querida do mundo ele tentando falar português – vontade de beliscar até deixar roxo! Tenho muito que agradecer a Deus e à vida por sempre me colocar pessoas tão incríveis no meu caminho!

Volto pra casa sentindo um sono descomunal e decido dormir – o que é inédito quando viajo. Hoje o tempo estava bem quente – você só via pessoas de mini shorts, chinelos e por aí vai nas ruas. E eu, a louca, de bota, blusa de frio, casaco e cachecol (não estava usando os dois últimos, mas andava com eles). Acho que essa mudança de clima repentina me deu cansaço e me fez ficar sonolenta (desculpa criada inteligentemente por mim mesma para que eu me permitisse dormir).

Acordo e decido sair pra jantar. Tanto a Brooke como o Max-alemão-querido me falaram muito bem de um tal de Pho, uma sopa de macarrão bem conhecida aqui que é de origem vietnamita. Depois de me certificar que ela podia não ser apimentada (tudo, absolutamente tudo aqui é apimentado, independentemente da hora que você esteja comendo, se é café da manhã ou jantar), decido bancar a aventureira gastronômica e comer o tal Pho. Pausa. Quem me conhece bem, sabe que eu sou de comer sempre as mesmas coisas, acho até bonito e admiro as pessoas que gostam de experimentar sabores novos, mas eu definitivamente não sou assim. Eu como sempre a mesma coisa ou similares e quanto mais simples for a comida, mais eu gosto (pratos com nomes estranhos ou refinados demais nunca me despertam vontade de comê-los). Brooke me diz qual é o restaurante mais próximo que vende o tal de Pho e vou lá. Sento, vejo o cardápio bem aflita e peço um Pho de carne. A carne era crua, mas eu falo 532 vezes “moço, cozinha isso, eplo amor de Deus”. Acho que em menos de 5 minutos, chega uma bacia na minha frente, pois aquilo não era um prato nem a pau. A carne estava cozinha (amém, Jesus!) e vinha junto com o tal do macarrrão e com umas verduras lá.

Bom, eu sou extremamente visual para comer (fresca mesmo), tanto que eu nunca como assistindo a programas policiais ou com notícias que tenham imagens ruins na TV. Tanto a comida tem que ter visual agradável como as coisas ao meu redor, senão não engulo nada. E eis que me vem uma bacia com água até a tampa, umas carnes estranhas boiando nela e um cheiro de que aquele bicho tinha acabado de ser assassinado e colocado naquela bacia. Nossa, me dá embrulho só de pensar… O gosto, à primeira tentativa, nem era tão ruim, mas à medida que eu sentia aquele cheiro e via aquele prato na minha frente, foi me dando um troço ruim que travou tudo – não adiantava tentar, não ia entrar mais nada. Aí, veio a crise: “Minha nossa, eu dei 5 garfadas nesse treco, não faz nem 5 minutos que chegou, se eu pedir a conta vai ficar super chato!”. Fico alguns segundos em crise, mas ao olhar pra aquele bicho morto da minha frente, me encho de coragem e peço a conta. A mocinha vietninamita achou meio estranho, mas não perguntou nada. Aliás, perguntou sim: “Quer que eu embale pra você levar pra casa?”. Vontade de puxar os cabelos dela nessa hora, mas apenas sorrio e gentilmente digo “não, obrigada”.

Saio desesperada atrás de um Poutine – uma comida daqui que eu realmente adoro!. Eu estava ainda com o gosto do bicho morto na boca e já estava ficando agoniada! Ando, ando e ando até que chego a uma lugar no qual comi Poutine com o alemão-querido e que amei. Finalmente, sinto um gosto bom na boca! Ai, que alívio!

Depois do meu jantar, resolvo andar mais e vou até o Canada Place. Me deu um aperto no coração quando sentei lá, uma vontade de chorar porque estava chegando ao final. E chorei. Estou no meio do meu choro e me chega um cidadão completamente agoniado, falando super rápido e com uma moeda de 1 dólar na mão. “Eu não sou daqui… 1 dólar.. carro ali parado… não tenho dinheiro trocado…” – isso foi o que eu entendi. O que meu cérebro processou?
– “Esse moço está querendo que eu troque dinheiro pra ele pra ele poder pagar o estacionamento porque a maquininha não dá troco”.
Pois bem, pergunto pra ele de quanto ele precisa e dou os 2 dólares e 50 centavos que ele queria. Ele pega meu dinheiro, agradece e diz TCHAU. Isso mesmo! Ele disse tchau! Eu fico feito retardada, olhando pra ele dando as costas pra mim e esperando o meu dinheiro. Não tinha dinheiro pra trocar! Ele queria meu dinheiro DE GRAÇAAAA! E eu deeeeei! Que ódio que deu de mim e desse cara, viu? Rapaz, se eu encontro esse homem na rua eu dou uns petelecos nele valendo, viu? Nunca mais faço algo sem me certificar se eu entendi o que a pessoa falou! Ódio!

Ando mais, tomo meu sorvete esperto (tá, eu sei, mas eu amo sorvete… Fazer o quê?) e volto pra casa. Hora de dormir e de lamentar que amanhã é meu último dia nessa cidade tão linda e que me presenteou tanto!

Obrigada por tudo, Vancouver!

Diário de Bordo – Vancouver/Victoria

Victoria/Vancouver, 07 de maio de 2015.

The Butchart Garden, Victoria

The Butchart Garden, Victoria

Acordo super cedo, às 4h da manhã, depois de dormir por apenas três horas. Motivo? Eu tinha que pegar um barco bem longe de onde estou para viajar até Victoria, a capital da província de British Columbia, onde estou (muita gente, como eu, acha que a capital é Vancouver, mas nops, é Victoria). É uma viagem longa, sendo 1h30 de Downtown (bairro onde estou) até o barco e mais 1h30 de barco até Victoria. Ou seja: 3h pra ir, 3h pra voltar. Exatamente por ser tanto tempo viajando, decidi que iria no barco mais cedo que tivesse pra poder aproveitar mais a cidade e daí eu ter que acordar tão cedo.

Acordo na hora, mas fico enrolando, enrolando, enrolando até que (pra variar) saio atrasada. Eu acho que tem algum sistema de autoboicote nisso, só pode. Estava escuro ainda, ando super correndo – lembrando que eu estou sentindo dores horríveis nos joelhos e por isso não ando direito, mas igual a um marreco – até que chego ao metrô. Quando estou descendo as escadas, o meu trem passa. Entro em desespero, mas vejo que outro chegará logo. O outro chega e eu perco de novo. Espero o outro e esse eu pego (Deus seja louvado!). Saio do trem e corro (marreco, não esqueça) para pegar o ônibus que vai me levar para o barco. Eis que fico sabendo que o ônibus saiu há DOIS minutos e que o outro só passará em UMA HORA. Só que uma hora de atraso, faria com que eu pegasse o barco duas horas depois do que eu tinha planejado. Resultado final: ao invés de 7h pra conhecer uma cidade inteira, eu teria só 4h30, sendo que só num jardim lá eu queria passar 3h.
Rapaz, eu senti uma raiva de mim que há muito não sentia. Que ódio que me deu! “Dois minutos? Dois minutos?! Sua tapada, tá vendo no que dá fazer tudo apressada, atrasada?! Que raiva de ti!”. Eu falava tanto palavrão e andava de um lado pro outro que um senhor se aproximou de mim:
– “Está tudo bem?”
– “Não, não está! Estou com raiva! Eu sou muito burra!”
– “Calma… Uma moça tão bonita não pode ser burra…”
Olho pra ele com ódio.
– “Desculpe, mas o senhor não está me ajudando.”
– “Mas o que você fez?”
Explico pra ele e a sua resposta é:
– “Oh…”
Ele disse apenas “oh…”, ou seja, ele também estava me xingando mentalmente.

Fico lá na estação de metrô, esperando o bendito do próximo ônibus, sentindo um frio do caramba e ainda digerindo minha raiva. Chega o ônibus e o motorista – a cara do Papai Noel – consegue me arrancar um sorriso com aquele seu bom humor e simpatia matinais.

Chego ao BC Ferry e espero meu barco. Meu Deus, que lugar CHIQUE, lindo, bem conservado! Putz, adoro o Canadá! Quando acho que já me surpreendi o bastante com a qualidade de vida deles, eis que chega o barco. O-que-é-aquilooo? Ele é gigante, tem de tudo dentro dele, desde restaurante, cafeteria, até loja de roupa e sala de games. Cho-quei no Canadá! O melhor: você viaja em poltronas mega confortáveis, com aquela vista incrível, pagando a bagatela de CAD$ 16,00 com as taxas inclusas. Uau!

Sento na minha poltroninha esperta e aguardo o começo da viagem. Aguardo, aguardo, aguardo… Começa a me dar uma impaciência porq… Pausa. Eu não sou o tipo de pessoa que pessoa que pode dormir menos de 8h (acordo querendo atirar nas pessoas e por aí vai), ou seja, eu estava estressadíssima. Estávamos “parados” há 30minutos e a única coisa que eu pensava era “Ah é, né? O ônibus não pode atrasar 2minutos, mas o barco pode 30minutos! Raiva de ti, Canadá!”. Olho pra uma funcionária que vinha passando e pergunto:
– “Vem cá, esse barco não estava marcado pra 9h? Porque não saímos ainda?”
E ela, com toda a simpatia e sorriso mais largo do mundo, responde:
– “Senhora, nós já saímos há 30minutos… Olha pela janela, já saímos.”
– “Ah…” – completamente sem graça!
– “Aproveite a viagem e tenha um dia feliz”.
Tá bom, voltei a amar o Canadá depois do constrangimento.

Finalmente, chegamos a Victoria! Uma moça me vê andando de um canto pro outro, visivelmente perdida, e me chama pra me ajudar (isso é bem canadense também!):
– “Oi! Você parece perdida. Posso te ajudar?”
– “Eu quero ir pro Butchart Garden e não sei qual é o ônibus… Esses aqui eu sei que não são…”
– “Ah, você vai comigo” – e sorri – “Eu sou a motorista daquele ali, vamos só esperar mais pessoas, ok?”

Eu sei que já disse isso, mas que povo simpático!

Entro no ônibus e – pra minha surpresa – ela não me cobra, não me pergunte o porquê, pois ela cobrou o de todo mundo. Pra mim ela só disse: “Você não precisa pagar, pode entrar”. Deus e suas formas de me fazer recuperar meu bom humor…

Próxima parada: The Butchart Gardens, uma das coisas que eu mais queria ver nessa viagem. Vi a foto desse jardim há algum tempo e lembro de ficar sonhando em um dia conhcê-lo. Cara, quando pisei nele, me deu um troço tão bom, uma alegria, uma vontade de ficar rindo sem parar.. E fiquei! Eu só falava “Wooow!” o tempo todo, alto mesmo (eu falo alto, rio, sem problema nenhum quando viajo). Tirei 500 mil fotos e fui feliz vendo tanta coisa linda, tanta cor… Eu tiro minhas fotos sozinha e preciso fazer vários malabarismos pra conseguir esse feito, desde pendurar a máquina em árvore até latas de lixo. Muitas pessoas quando vêem, em especial os velhinhos, riem e perguntam se a foto deu certo. Já fiz algumas amizades assim – sou a musa da terceira idade de British Columbia!

Conheci o jardim mais rápido do que eu gostaria, bem mais, até. Mas valeu a pena, valeu MUITO a pena! Li em um blog uma pessoa dizendo que não achava lá essas coisas e que não pagaria de novo pra ver jardim se no Canadá tem jardim pra dar e vender. Lembrei muito dela enquanto via aquela coisa enorme e linda e a única palavra que me vinha à cabeça era “retardada”. Eu pagava 50 vezes pra ver aquilo de novo e, sim, tem muito jardim no Canadá, mas nada comparado àquilo!

Saio do jardim com meu super sorvete (delícia!) e vou procurar o ônibus pra me levar a Victoria. “Mas você não está em Victoria?”. Teoricamente sim, mas o jardim é fora da cidade e levava mais uns 50 minutos pra chegar a ela. Pergunto pra uma moça que trabalha no jardim se ela sabe qual é o ônibus. “Não sei, mas vamos ali olhar na parada que descobrimos”. Ela disse “vamos”, e não “vá”.
– “Não, não… Não quero te atrapalhar, eu vejo lá. Fica um pouco longe daqui..”
– “Não tem problema, é até importante que eu saiba disso porque outras pessoas vão perguntar. ” – fala com um sorriso enorme.

Pausa. Mãe, manda minhas coisas que eu não volto mais pra casa.

Voltando… Chego a Victoria. Depois da viagem de ônibus, aquele chacoalhozinho gostoso, me dá um sono enorme e começo a sentir que meu cérebro tá pifando. Ajudo uma senhorinha com suas sacolas, ao que ela diz “Thank you”. Uma explicação antes de continuar: é muito comum aqui as pessoas responderem “You’re very welcome” ou “No problem” – com uma vozinha super simpática. Claro que eu entrei na vibe e respondo do mesmo jeito, né? Prosseguindo com a senhorinha:
– “Thank you, dear!”
(Meu cérebro pifando)
– “Your problem!”
– “Sorry?”
– “I said your problem!” – eu ainda re-pe-ti!
Vi a cara de confusa dele e fiquei sem entender. Acho que umas 4h depois, sentada e pensando na vida, foi que me deu o clique!

Ando por Victoria e me apaixono pela cidade! Linda, linda, linda! Bem menor que Vancouver, mais cara de interior (interior chique, limpo, digno, diga-se de passagem) do que de cidade grande. As pessoas são extremamente cordiais, o que seria estranho se assim não fosse.

Ando, ando, ando, deixo de sentir minhas pernas, ando mais um pouco e paro pra comer um pouquinho de câncer, aliás de peixe frito com batata frita. O lugar chama-se Barb’s e fica no Fisherman’s um conjunto de restaurantes que fica na água mesmo, suspensos não sei pelo que. É bem legal e estranha a sensação de estar sentada e se mexendo ao mesmo tempo. O lugar é lindinho, cheio de vida e cor.

Hora de voltar. Muito frio. Muito! Pego o ônibus pra estação dos barcos (1h de viagem), pago a minha passagem de volta e me deparo com um por-do-sol LINDO, digno de um quadro!

O barco/navio/sei lá como chama aquilo chega. Decido que quero comprar porcaria pra comer e entro na loja que tem no barco. Desisto da ideia e, quando estou saindo, o troço lá apita (aquele que acusa que você roubou alguma coisa). Acho que o navio todo escuta aquele treco de tão alto que é. Volto sem graça. “Foi comigo?”. Vou logo dando minha bolsa e sacola. Saio de novo, como pedido pelo gerente. Berra mais alto ainda. Volto e ele pede o casaco (tudo isso da forma mais gentil possível, o que não evitou que eu suasse bicas). Tiro o casaco e volto. Berra de novo. Já vejo umas pessoas olhando. “Você está usando alguma coisa nova, com etiqueta?”. Digo que tudo era novo, mas que não lembro de ter etiqueta.
– “Você quer que alguma mulher me acompanhe ao banheiro e veja?”
– “Não, não precisa..”
– “Quer que eu tire a bota?” – senti um frio na espinha esperando a resposta dele – a minha meia era a coisa mais horrorosa do universo e estava PRE-TA.
– “Não…” – meu coração volta a bater.

Saio da loja e umas 2 pessoas vêem me perguntar o que tinha acontecido. Não bastava o mico, ainda tenho que explicar o que aconteceu.

Chego a Vancouver. 10h30 da noite. O bagaço da laranja. Pego o ônibus e parto pra mais 1h30 de viagem. Mais 15minutos pro próximo bus. Meia-noite e meia em casa, finalmente. Deito pra relaxar antes de me arrumar pra dormir e acordo só hoje de calça, blusa e bota.

O dia foi super cheio e cansativo, mas absurdamente recompensador. Victoria, obrigada por fazer parte das minhas memórias mais lindas a partir de agora! Você definitivamente já mora no meu coração!
E que venha mais amanhã!

Diário De Bordo – Vancouver

Vancouver, 06 de maio de 2015.

Grouse Mountain -

Grouse Mountain 

Uma palavra pra definir meu dia: UAU! Eu disse U-A-U!

Acordo bem cedinho, checo como está o tempo e vejo que poderei finalmente fazer os dois passeios que eu tanto estava esperando. Confesso que eu estava com medo de não conseguir em virtude do tempo que estava fazendo há dois dias. Quando chegueia Vancouver, os dias estavam se resumindo a bastante Sol e um frio suportável (exceto o do primeiro dia), mas há dois dias, ficava bastante nublado e como esses passeios ficam em montanhas, não ia rolar por causa da névoa.

Uma vez segura de que o tempo estava mesmo bom, me mandei pro Canada Place, de onde sairia um ônibus gratuito para o Capilano Suspension Bridge, minha primeira parada. Nosso motorista era um senhor mexicano (não perguntei o nome dele), residente a Vancouver há 16 anos, engraçadíssimo e super animado.

Chego a Capilano Suspension Bridge. O lugar é muito interessante, no meio da floresta, apesar de não ter muuuuuitas atrações. A principal delas é a que dá o nome ao lugar: uma ponte suspensa que balança mais que mulata requebrando no Carnaval. Tem um povo exagerado que fica tendo uns pitis, dando os gritinhos toda vez que ela balança mais forte, mas não é nada que você acha que vai cair, pois é visível que a ponte é bem segura. É muito legal andar nela com aquela paisagem linda, um rio poderoso abaixo dos seus pés, sentindo aquele enjôozinho esperto com a chacoalhada que ela dá. A-mei!

Ao atravessar a ponte, você pode ir para outras atrações que tem lá, como o TreeTops Adventure, que nada mais é uma espécie de trilha por entre os topos das árvores. Achei um barato! Existem mais “trilhas” a serem feitas por lá e atividades pra crianças.
Uma das atrações mais famosas lá, depois da ponte suspensa, é o CliffWalk, uma passagem (também suspensa), bem estreita e que garante frios na barriga. A-do-rei também! O Capilano é um passeio bem simples, nada de muito emocionante ou extraordinário, mas vale muito a pena pelo contato com a natureza, pelo ar puríssimo que você respira lá e pelas paisagens lindas. Faria de novo, certeza.
De lá, pego um outro ônibus e vou para Grouse Mountain, uma espécie de resort que fica a uns 10 minutinhos de Capilano e que tem várias atrações no pico da dita montanha. A recomendação que recebi deles por e-mail é que eu reservasse com, no mínimo, uma semana de antecedência, mas como o tempo estava muito incerto, fui na cara e na coragem (coisa que não é minha cara nem a pau), pedindo aos meus 17 anjos da guarda que tivesse vaga para a tirolesa, o passeio que eu mais queria fazer. Depois de alguns minutos de silêncio da menina que estava me atendendo, a resposta veio: tinha vaga pra tirolesa, siiiiim!!! Dei um grito, ali na cabine mesmo: “Yeaaaah!!! I can’t believe that! I-am-so-happy (acompanhada de uma dancinha meio jamaicana que eu tirei não sei de onde, meu Pai).” A menina começa a rir e manda um:
– “Você parece muito feliz, eh?”
– “Feliz? Eu estou muuuuito feliz! Eu estou planejando isso desde outrobro!”
– “Uau! Espero que você goste!”
– “I wil… I know I will…”

Para subirmos até o pico da montanha, pegamos uma gôndola fofa chamada Skyride. São 8 minutos subindo, subindo, subin…
– “Pera! Que tanta neblina é essa?!”
– “Ow, Tatiana! Tu foi pensar logo agora?! O carinha tava anunciando agora mesmo quanto tá lá em cima, mas tu não me deixou ouvir!”
– “Desculpa, desculpa…”
– “O jeito é tu perguntar pra esse carinha loiro, lindo, de olhos azul da cor do mar o que o menino disse..”
– “Ah, que chato.. Volto já, vou perguntar aqui!”.

5° graus! Foi isso que o sueco/suíço/não-sei-a-diferença me disse que ouviu do “motorista” da Gôndola.
– “5° graus?! Eu vou morrer!”
– “Vai não… É só você procurar se aquecer…”
Minha resposta mental: “Você tem alguma sugestão? Hein? Hein?”
Minha resposta real: “Hum.. Verdade. Vou pegar meu casaco.”

Os olhos azuis da cor do mar se despedem de mim e eu sinto meu corpo inteiro clamar por misericórdia quando coloco o pé pra fora da gôndola. Que frio era aquele, meu Pai Celestial? Até quis chorar, mas quando pensei que a lágrima congelaria no meio do meu rosto e que isso ia doer muito, desisti da ideia. Havia neblina pra dar e vender, a ponto de você não ver um palmo à sua frente.
Decidi ir comer antes de me aventurar pela montanha. Na verdade, essa decisão foi meio que inspirada naqueles filmes de prisioneiros que pedem sua última refeição antes de serem executados. “Se é pra morrer, vamos morrer de barriga cheia e feliz!”. Peço meus nuggets com batata frita (quero arrrooooooooz e feijão na minha vida!) e constato pela milésima vez algo que sempre me choca muito aqui na América do Norte (EUA e Canadá): as porções de comida deles são MUITO exageradas! Eu disse MUITO! Aquela comida alimentava umas 3 pessoas brincando! Joguei 80% fora e vi algumas pessoas meio que olhando porque o prato estava cheio ainda.

Hora de encarar o frio. Rezo um rosário, entrego minha alma a Deus, me confesso com um padre que tinha lá e abro a porta…. Vagarosamente, crio coragem e abro os olhos pra ver se Patrick Swayze já está lá me esperando, com uma luz brilhante atrás dele, me recebendo no paraíso. Mas num é que eu me surpreendi com um super sol, menino? O sol apareceu valendo e estava até quentinho, a ponto de eu nem usar o casaco! Era o dia perfeito para ter ido pra Grouse Mountain, pois vi várias fotos de pessoas nas quais você via nada além de neblina.

Bom, ando pela montanha, vejo os ursos lá (enormes, gigantes, lindos!), ando mais um teco até que chega a minha hora de ir pra tirolesa. Nossos instrutores, Jenny e Ryan, eram tão queridos, gente! Eles deixavam a gente super confortável, animavam nossas descidas e tornavam tudo muito mais fácil! A tirolesa constava de 5 linhas, ou seja, nós descíamos 5 tirolesas diferentes, ficando uma mais longa e mais rápida que a outra. Eu sempre achei que era apenas uma corda e, quando desci a primeira, que era pequenininha, um tequinho de nada, fiquei extremamente desapontada. Deu nem frio na barriga… Até que vejo que iremos pra outra. Ela era um pouco maior e um pouco mais rápida, mas nada demais também. Quando ouço do guia que serão 5 e que vejo de onde sai a última (ele aponta e, cara, era um troço muito, muito alto) começo a sentir uma raivinha de mim por ter desejado que fosse mais radical. A penúltima e a última são simplesmente in-crí-veis! Eu gritava tanto que parecia uma louca! Nessas duas, atingimos uma velocidade maior que 80km/h e é alto pra caramba, acho que uns 200metros. Valeu muuuuuuito a pena cada centavo gasto na Grouse Mountain! Saí de lá revigorada, desejando viver 250 anos pra sentir aquilo de novo mais e mais vezes.

Me despeço da Grouse e pego o ônibus do Capilano de volta pra casa. Max me chamou pra jantarmos e eu teria uma hora e meia pra chegar, descansar e me arrumar com calma. Pois bem, acabamos descobrindo que o restaurante fechava cedo e o resultado foi:
– “Tatiana, eu estarei aí pra te pegar em 10min”
– “O quê?! Nem pensar!” – falo da banheira, morta de relaxada e despreocupada com a vida.
– “Tatiana, eu estarei aí em 10 minutos! Corre!”

Cara, como eu odeio os homens! Pra eles é muito prático se arrumar. Pra gente? Vejamos: eu saio feito uma doida, correndo que nem um marreco sendo atacado por um javali, com o pente na boca, o cabelo tooodo despenteado e embaraçado (daquele estilo que você fica com bolas de cabelo de tão embaraçado que tá) e sem maquiagem. Quando o Max me vê, ele começa a rir e a única coisa que eu repito por quarteirões é “Eu te odeio”, ao que ele responde “Não, você não conseguiria me odiar”. Lá vou eu, a louca, andando apressada, se penteando em pleno Canadá e se maquiando na rua (óbvio que na hora do rímel eu me borrei toda, né?). Toda a minha chiqueza incorporada nas minhas luzes, cabelo com escova inteligente, bota marrom chique foi embora depois disso… uma tragédia.

O jantar foi bom, senti que estava comendo comida de verdade como raras vezes aqui, mesmo o yakissoba sendo doce (esse povo é muito estranho). Depois do jantar, andamos um bom bocado, fomos ao Canada Place – que estava LINDO com suas luzes coloridas – e voltamos pra casa, os dois mortos de sono.

Meu dia hoje? UAU!!! (Respondi?).